31/01/2004

O busilis do Cacáu ou agententem-se, suiços, mais uns tempos.

Aguentem-se, suíços, mais uns tempos.

- Aqui D’el Rei - cacareja alguém. - Os descontos de um batatal de manguelas do Ministério da Justiça ficaram no ministério e não foram entregues.

Não foram entregues! Se calhar não foram …

- Mas entregues a quem? – pergunta a Ministra da Justiça, no momento em que se estava à espera de uma resposta e não de outra pergunta.

Os meus ouvidos, ligados à penca, encapiturraram-se por esturro.

- Alguém terá que ir de cana porque empresários também o foram em idênticas circunstâncias – esguicha um especialista.

- Mas nós só não entregámos o cacau porque não sabíamos a quem. Estávamos à espera que o Tribunal decidisse a quem o deveríamos entregar – adianta ainda a Ministra deixando-me com vontade de me apresentar como voluntário à árdua tarefa de aliviar, do dilema da Ministra.

- Mas qual trafulhice, qual carapuça – abspõe um engrenagem do Ministério - Nós não retivemos o taco. Nós só o guardámos!

- Mas então e a choldra? – volta a esguichar o salpicante especialista. - É preciso aplicar a mesmíssima lei que no passado atirou um empresário para a colónia de férias. As condições eram idênticas, tanto mais também ele também não reteve o cacau. Só o guardou.

Tá bem. Após portentoso esforço percebi que apenas se tratava de saber em qual dos bolsos do estado vai o cacau ficar retido, aliás guardado … até ser perdido, juntamente com o seu rasto.

Assente o nevoeiro, mas não a poeira, fiquei a saber que para que uns 600 gajos que trabalhavam para o Ministério da Justiça pudessem continuar a trabalhar, pressupondo eu que por haver trabalho que o justificasse, lhes foi dada, por via de novo contrato, continuidade por novo período. Se é indeterminado o tipo de novo contracto e se se trata de uma continuação, é porque o anterior também já era indeterminado. Tudo bem, portanto.

Nada disto aliás é confuso, porque se sabe que a teoria e a prática do nosso sistema legal e de justiça são compostas por camadas retalhadas de inúmeros quebra-cabeças constituintes de um outro absolutamente abrangente quebra-cabeças que os meritíssimos qualificam de “o máximo”.

Pensando que a poeira começava a assentar porque, ao fim e ao cabo, se tratava de alarido com base num pedacito de um tresmalhado sub-quebra-cabeças conflituante com outro pedacito de outro resvalante sub-quebra-cabeças, vem a Ministra, já em período de rescaldo, argumentando de forma rematante:

- Então não vêm, insensíveis criaturas de Deus, o mérito que tivemos por evitar o drama que se prefigurava à vida dos 600 trabalhadores e respectivas famílias?

Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. Estava eu a pensar que os 600 gajos tinham sido readmitidos por haver trabalho que o justificasse. Que tanta bagunça seria motivada por uma vontade inabalável de ajudar a resolver os imbróglios que uma miríade de apodrecentes processos fazem passar aos respectivos promotores. Mas só tardiamente esta tosca mente se iluminou percebendo que se tratava afinal de dar trabalho aos derradeiros desempregados, mesmo correndo novo risco, o de tornar inútil todo o software de estatística provocando divisões por zero ao calcular a resultante percentagem de desempregados.

Derradeiros, dizia eu, pois claro, senão, perante os restantes desempregados, estar-se-ia a braços com mais um caso de “filhos da mãe e … filhos da mãe” ou de “jobs for the boys”

Acalmadas as almas, naturalmente mais ninguém cacarejou, esguichou ou abspôs.

Óh felicidade das felicidades. Aguentem-se, suíços, mais uns tempos, porque não tardará que o pouco trabalho à disposição acabe por aborrecer os tais 600, que reivindicarão, à Ministra, como animação, o destacamento junto do estado suíço, como catalisadores de eficiência. E nessa altura, aplacai-vos, óh almas daninhas de voltar a duvidar da Ministra. Já pensaram a coragem que vai ser necessária para dirimir mais um dilema sobre o que fazer aos descontos provocados pelo novo contrato? Já se aperceberam que a vão obrigar novamente a rete-los? perdão, guarda-los?

A bem da nação,
Range-o-Dente

17/06/2003

Os abutres no Norte de África

Que dizer do silêncio da esquerda sobre o que se está a passar em África? Será que tem receio que lhe enfiem o supositório Iraque?

Não estava a esquerda preocupada com as vítimas inocentes que os Americanos estavam a provocar no Iraque? Os MILHÕES de vítimas africanas (mortas ou, se ainda vivas, mortas de fome) não são inocentes?

Onde anda o Schroeder? E o Zapatero? E o artista do Fahrenheit 9/11, estará já a filmar nas areias do deserto?

Onde anda a gorda esquerda de figura consonante com as lentas digestões de Michael Moore, e que aplaudia o revés americano na Somália? Também atacada de azias?

Porque não vai o mais alto irmão Dalton para a porta da embaixada dos Estados Unidos reclamar que "eles façam alguma coisa", como aconteceu no caso de Timor. Se calhar porque Timor lhe rendia votos ... não necessariamente por estar preocupado naquela altura com os timorenses, como agora com os africanos.

E onde anda o Dalton mais velho, que, recorrendo à sua perspectiva de historiador, nos poderia ajudar a digerir (enquadrar) com mais suavidade a putrefacção dos famintos africanos?

Entre a visão da águia americana e a do abutre europeu, o diabo escolheria a do abutre. A águia ainda corre o risco de sair ferida, nas refregas em que se meta. Quem vai à guerra dá e leva. A Europa não dá nem leva, só come.

Que rebente de gorda.

04/04/2003

O tijolo e o negro líquido

Os pacíficos governos europeus que sempre acusaram os americanos de guerrear por causa do petróleo, aparecem agora em público a reivindicar o seu quinhão de construção civil do Iraque, esquecendo-se (ou fazendo-o crer) que se trata de construção civil por petróleo. O exacto petróleo que os mesmos pacifistas renegavam há 15 dias não querendo nele sujar as mãos.

A moral?

Vamos dar de barato que os americanos guerreiam para aceder ao vil líquido e que a reconstrução do Iraque é mais uma faceta desse abjecto negócio. Os americanos farão isso MAS sofrem baixas. Os europeus constróem por petróleo mas tudo fazem para parecer não terem a iniciativa de "aceder" a esse "bem", e à sombra das baixas americanas.

Algumas almas reclamam que o pacifismo tem florescido na Europa graças à segurança que os americanos lhe têm proporcionado. E parece que assim vai continuar.

Claro que as Nações Unidas estão no circuito para "moralizar" a operação de reconstrução. Também os traficantes de droga procuram os bancos para lavagem de dinheiro. Se a mesma guerra tivesse sido aprovada pela ONU teria, portanto, o beneplácito da Branca (como o "pó") de Neve.

Esperam-se, portanto, violentas manifestações na Europa, contra os pacifistas governos europeus que cederam à sede imperialista pelo vil petróleo (também os europeus têm sede).

Já se sabe que os americanos atacam também para agradar ao lobi interno dos construtores de armas e que muito longe disso estarão os europeus, claro. Se calhar só estão longe disso quantitativamente, e por imbecilidade política. Se calhar porque não dedicam ao assunto recursos suficientes para competirem quantitativamente e tecnologicamente. Mas nos poucos casos em que o conseguem lá estão, também eles, a vender aviões, tanques ou componentes para armamento. Não é por acaso que uma boa parte das metralhadoras americanas são de fabrico alemão (talvez sejam alemães de Marte e só eu é que não me apercebi disso).

Enfim, dizia o patético e absoluto pacifista Carvalhas "guerra não porque prejudica os mármores". Pois agora, que já foi feita, aproveitemos e vendamos mármores. Não consta que ele proponha que sejam pacifico-filantropicamente oferecidos.

Aguardemos as previstas (por mim) manifestações.