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19/01/2007

O relógio de ponto



Então parece que o ministro da Saúde, Correia de Campos, vai legislar no sentido de autorizar médicos que trabalhem apenas 4 horas (controladas, pois claro) a manterem lugares de chefia no sector de medicina privada.

Será que tem a ver com esta outra história? Será que a rapaziada estava a trabalhar apenas 4 horas (com boa vontade) recebendo 8?

Será que o relógio de ponto tornou claro que arrecadavam ao bolso, sem contrapartida em trabalho, 50% daquilo que o estado lhes pagava?

As negociações prevêem-se "demoradas" diz o ministro. Pois é: a vingança serve-se fria. Não há problema. Demorem o tempo que quiserem, porque o relógio de ponto só conta quando deve.

Viva o relógio de ponto POR IMPRESSÃO DIGITAL.

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13/01/2007

03/01/2007

Médicos ...

Os médicos que "apresentaram"a sua demissão do Pedro Hispano não parecem estar bons da cabeça.

Apresentaram a demissão porque não queriam que lhes controlassem as horas de entrada e saída.

Afinal apresentaram a demissão de forma ilegal, porque, afinal, não queriam apresentar a demissão.

Depois vêm dizer que ainda vão ver, até Fevereiro, em que consiste esse controlo horário. Não se percebe porquê se, pelo seu ponto de vista, apresentaram a demissão.

Se o sistema não lhes interessar, entregarão então a demissão individualmente.

...


Porque é que os médicos em causa não apresentaram a demissão dos locais onde estão habitualmente a trabalhar, em sobreposição ao horário que deveriam cumprir no Pedro Hispano? Se calhar porque seriam imediatamente corridos.

As posições do sindicato que os representa e da Ordem dos Médicos só merecem uma classificação: abjectas.

Tenham vergonha.

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Actualização
[via Blasfémias].

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11/11/2006

Colonialismo em greve

[Pensei inicialmente comentar o texto abaixo após a sua integral transcrição. Mas a densidade de disparate é tal que não o consegui. Vou comentar por blocos. A integralidade do texto, mantém-se.]

No Abrupto, pode ler-se:


O que me choca mais neste momento de contestação, é a reacção de uma parte significativa da população que tem sido ouvida nos órgãos de comunicação. Para lá de qualquer possível estratégia de apoio ou contestação à greve, é inegável que cada vez mais pessoas são contra as greves.

O autor começa por confundir a greve em causa com [todas] as greves. Dar-se há o caso de supor gozar do monopólio ao exercício desse direito?

Uma das razões mais apontadas para esta posição é a ideia de que os funcionários públicos são privilegiados, têm emprego garantido, salários altos, e reformas boas. Bem, a questão das reformas, agora que são aos 65 anos e foram reduzidas em valor, já não se ouve tanto. Mas a ideia de que há funcionários a mais, de que estes não trabalham, ou que trabalham mal, e que ganham de mais, é muito generalizada.

Ainda bem que o autor percebe que a questão da idade da reforma tem vindo a atenuar a contestação. Mas aproveita para não se manifestar em relação à justeza de igualdade de direitos entre uns e outros.

Porque me chocam estas opiniões? Porque revelam um desconhecimento enorme da realidade. Da realidade dos funcionários públicos, dos serviços públicos e da sua organização, e dos direitos dos trabalhadores. Essas pessoas que acusam, a meu ver injustamente, os trabalhadores da administração públicos de tudo o que consideram mau, são em muitos casos, as mesmas que aceitam trabalhar em más condições, com salários muito baixos, e com poucas ou nenhumas regalias sociais. Desta forma, tendem a conceber os direitos sociais como privilégios. Isto é muito preocupante...

Não será o autor quem está desajustado da realidade?

Tem ainda a lata de acusar as tais pessoas de aceitarem trabalhar em más condições? E o autor estará à espera de compreensão pela parte por quem ele tem em tão pouca consideração? E não suporá ele que esses tais inimigos sentirão que as regalias que ele reclama estar a perder já há muito (se alguma vez as teve) as perdeu?

... "e com salários muito baixos" ...!!! Então, e parece-lhe de esperar o apoio de quem tem salários muito baixos a quem os tem substancialmente mais altos (a premissa é dele)?

... "e com muito poucas regalias sociais" ... !!! E já passou pela cabeça do autor que isto soa ao seu inimigo como um acerto de contas (finalmente)? E porque haveria quem tem poucas regalias de defender quem tem muitas (a premissa é dele)?

Na medida em que revelam um pessimismo generalizado, uma inveja latente, uma noção de que os direitos são privilégios e não direitos, de que todos devem sofrer como eles sofrem, estas opiniões são perigosas.

Na medida em que o autor revela não ter percebido que às suas regalias corresponde a nossa miséria, que os seus direitos são simples privilégios e que estes não devem ser conseguidos à custa do trabalho de outros, que a forma de encarar o mundo defendido pelo autor do texto bem podia ter sido desenterrada do feudalismo.

Não para os funcionários públicos, que parecem estar condenados a continuar a perder poder de compra e direitos, mas para a generalidade dos trabalhadores por conta de outrem. Isto revela uma submissão e uma subserviência ao poder económico, que acaba por se generalizar e diminuir, se não extinguir, direitos que eram considerados, até há pouco tempo, fundamentais.

E agora o autor confunde a generalidade dos trabalhadores com a generalidade dos trabalhadores!. Queixa-se que a forma como a generalidade dos trabalhadores (pressupondo-se que em oposição aos funcionários públicos) encara a coisa, vai de encontro ao interesse da generalidade dos trabalhadores ... ou então à generalidade de trabalhadores deveria corresponder uma generalidade de direitos e deveres, coisa que ele não dá de barato.

E depois a história da submissão ... como se a generalidade dos trabalhadores não aparentasse estar cansada de demonstrar subserviência e submissão aos interesses e direitos que ele supõe serem fundamentais, mas que eles percebem serem apenas apanágio da classe dele.

Não me parece ser este um bom caminho. Puxando os funcionários públicos para baixo, toda a sociedade portuguesa vai ser puxada para baixo, e vamos assistir, já estamos a assistir, a um aumento da diferença entre ricos e pobres, ou seja, ao enfraquecimento das classes médias. Isto é mau para o colectivo, por bom que seja para os empresários, proprietários de riqueza e de bens de produção.

Já percebemos. Há uns, malandros, muito ricos, e a quem ninguém consegue beliscar. Mas nós, imbuídos de um inoxidável espírito altruísta, queremos atenuar essa desigualdade tornando-nos mais ricos à custa das classes mais pobres a quem, por estratégia momentânea, metemos no mesmo caldeirão e chamamos agora de "classe média", esquecendo-nos que os tínhamos à pouco acusado de serem uma espécie de bandalhos incapazes de reclamar direitos.

Será que vamos ser todos empresários? Será que vamos todos ter empregados a trabalhar para nós, e a quem vamos pagar o mínimo possível?

Mais uma vez a hipocrisia leva a melhor. O mesmo povo que tem um dos índices mais altos de posse e utilização de telemóveis, e de outros bens não essenciais, reclama agora uma justiça social nivelada por baixo, como se isso fosse bom para todos. Hiprcrisia perigosa, digo eu, porque vai calcar ainda mais o nível de vida dos portugueses, de todos, incluindo os funcionários públicos. Será que os não-funcionários públicos ganham alguma coisa com isso? Tenho a convicção que não, mas ficam felizes com esta vingaçazinha, do português "toma lá que é para não pensares que és melhor que eu...eu estou mal mas tu também ficas."

(Fernando Reis)

Que pena que o autor se tenha esquecido de declarar solidariedade para com os que além de terem menos direitos contribuem para os direitos que ele quer manter.

Direi: toma lá que é para deixares de pensar que és melhor que eu... que eu estou mal mas apenas por ser bandalho. Eu, que te pago metade dos proventos do meu trabalho e que ainda por cima sou visto como um inimigo a abater.

Há muito que não via tamanha manifestação de espírito colonialista. Pessoas capazes de supor que o funcionário não público é uma espécie de escravo e a quem, perante valores superiores, até a posse de telemóvel poderá ser posta em causa para permitir que mordomias coloniais sejam mantidas. Só Salazar era capaz de o defender: pobrezinhos, mas limpinhos.

Quantos funcionários públicos se reverão nas palavras dele? E, onde estão os repúdios?

Irra, que é bruto.

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Greve, mas não ao absurdo

No Abrupto, pode ler-se:
O secretário de estado, João Figueiredo, faz lembrar o ministro da informação iraquiano, Mohammed Saeed Al-Sahhaf. Os seus 11,7% de adesão à greve da função pública hoje (9.11.2006), por exemplo, na educação, querem dizer que a escola está aberta, apenas com um ou dois funcionários. Um deles na portaria. Os professores entram, estão nas escolas, não podem ir às salas de aula porque os pavilhões estão fechados. Ficam confinados à sala de professores e ao café em frente da escola. Os alunos não podem entrar no recinto escolar por falta de pessoal. Mas a escola funcionou e não houve greve! Pelo que se passou hoje, amanhã os alunos nem se preocuparão em levantar-se a horas. Não quer dizer que tomo como líquidos os 80% de adesão referidos pelos sindicatos. Mas...

(Gabriel Mithá Ribeiro)
Por mais voltas que dê ao miolo, não consigo perceber o texto acima.

Que será que o autor considera "adesão à greve"? Se num escola houver impossibilidade de haver aulas porque o porteiro entrou em greve (não havendo chave para entrar), e os professores ficarem à porta, estarão também automaticamente em greve?

Se: "
Os professores entram, estão nas escolas, não podem ir às salas de aula porque os pavilhões estão fechados", depreende-se que a generalidade dos trabalhadores da escola (os professores) não estarão em greve. Quer o autor que sejam considerados grevistas as pessoas que não conseguem trabalhar porque outros trabalhadores, em greve, não permitem condições para que os alunos possam entrar na escola?

... "
Mas a escola funcionou e não houve greve!" ... A escola não funcionou porque houve greve de uma pequena parte do pessoal da escola, e, incontornavelmente, a adesão à greve terá sido baixa.

Nesta perspectiva o secretário de estado João Figueiredo tem razão e, pode contrapor-se, parecer razoável estabelecer um paralelismo entre
Mohammed Saeed Al-Sahhaf e o autor do texto.

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Se há alturas em que me apetece verter umas brejeirices, esta é uma delas.

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19/06/2005

As naves espaciais e as greves dos professores.



Enviar uma nave espacial (vulgarmente denominada sonda) a outro planeta, é uma tarefa complexa.

Há que definir metas a atingir, esboçar o projecto e distribuir, por diversas equipas, o desenvolvimento dos diversos equipamentos (instrumentos, motores, etc). Haverá que estabelecer uma equipa para coordenar as restantes.

Além de planear a parte que lhe compete, cada equipa terá que adjudicar os componentes, montá-los, definir métodos de teste, realizar os testes e definir correcções até que o instrumento ou equipamento a seu cargo funcione, em ambiente de laboratório, na perfeição.

Após tudo estar montado no corpo da sonda, (desenvolvido por uma das equipas) terá lugar um ou múltiplos testes finais.

Dada como pronta, a sonda, que neste caso poderia destinar-se ao planeta Marte, será instalada num foguete lançador que a colocará no espaço.

A determinada altura, esse foguete será lançado.

Suponhamos agora que pela altura do lançamento, as pessoas encarregues de o fazer entram em greve.

Se essa greve tiver uma duração curta, será possível lançá-la nos dias seguintes à mesma hora, mas consumir-se-há bastante mais combustível e, chagada a Marte, restar-lhe-há menos combustível para efectuar manobras, implicando a inutilidade prematura da sonda. Haverá pois, uma penalidade irreversível.

Se a greve durar, suponhamos, 8 dias, não será mais possível efectuar o lançamento porque a sonda nunca chegará a Marte: nessa caso, o melhor percurso possível consumirá mais combustível do a quantidade instalada na sonda. O lançamento terá então que ser adiado por um ano.

Um ano depois, haverá que repetir uma imensidão de testes, substituindo mesmo partes substanciais da sonda porque, entretanto, algumas delas teriam que durar mais do que previsto - nessa nova data de lançamento a sonda já terá, de idade, mais 1 ano que o planeado inicialmente. Pode mesmo acontecer que todo o projecto deixe de fazer sentido e vá por água abaixo.

Vejamos agora o caso das greves dos professores.

Os professores planeiam aulas, dão aulas, fazem regularmente chamadas para aferir resultados, realizam pontos, enfim, tentam, na medida do possível, deixar os alunos em condições para o exame final. É certo que o exame final pode não ser absolutamente decisivo, mas será decisivo para uma parte substancial dos alunos.

Suponhamos agora que no dia do exame os funcionários das portarias das escolas entram em greve e alunos e professores não podendo entrar nas instalações vêem-se na impossibilidade de fazer exames.

É certo que, perante este cenário, uma parte inquietante dos professores se estaria absolutamente nas tintas, mas só assim é porque, obvia e habitualmente, se estão absolutamente nas tintas por ver aferidos os resultados do seu trabalho - por ver, em concreto, preto no branco, o fruto do seu trabalho.

Evidentemente que os exames podem ser realizados posteriormente, mas certamente com penalidades. Se assim não fosse a data inicialmente marcada seria inapropriada, coisa que ninguém parece defender.

Se é claro que a muitos professores é indiferente, ver, ou não, os resultados do seu trabalho, também é óbvio que se estão tão supremamente nas tintas que são, eles próprios, capazes de entrar em greve no período de exames.

Sendo absurdo entrar em greve nesse período, tende a parecer que supõem ser o único apropriado para a realizar.

Há outros casos idênticos, como o caso dos trabalhadores do serviço de estrangeiros e fronteiras que ameaçaram greve pelo Euro 2004.

Não é admissível que em períodos corolário de projectos complexos se entre em greve comprometendo substancialmente e irreversivelmente o resultado do trabalho e vida de pessoas.

Não é razoável que médicos entrem em greve suspendendo trabalhos em blocos operatórios e consultas há meses ou anos esperadas, remetendo-as para meses ou anos depois. Sendo difícil contabilizar, isto resulta numa diminuição da esperança de vida – não sendo o adiamento uma vantagem, só poderá ser uma desvantagem que se traduzirá em mortes precoces a curto ou longo prazo.

Imagine-se que em terra os controladores de uma missão espacial tripulada entravam em greve, provocando a morte dos tripulantes de uma nave. Cairia e Carmo e a Trindade. Pois é isso que os médicos fazem regularmente.

Não é, já agora, razoável que se entre em greve às 6as ou às 2as feiras, parecendo que se está a “comprar” um fim de semana prolongado.

Não é razoável que grupos profissionais cuja entrada em greve afecta directa e substancialmente centenas de milhar de pessoas (transportes) entrem em greve de forma repetida e sistemática por terem a capacidade, pela sua própria natureza, de provocar monstruosos estragos. Aliás, do ponto de vista sindical é contraproducente porque leva à percepção dos restantes trabalhadores, da inviabilidade das suas próprias greves por não terem possibilidade de produzir idênticos estragos. Daí ao desinteresse à sindicalização, vai um passo.

Parece cada vez mais que os sindicatos estão a perder o pé e que cada vez mais delineiam estratégias de defesa das regalias de determinadas profissões em detrimento das outras. Conviria talvez que os sindicatos avaliassem estratégias comuns e defensoras da globalidade dos trabalhadores e não só de alguns, de outra forma o movimento sindical no âmbito da generalidade da sociedade está condenado.

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24/05/2005

Nova forma de escravatura?



Quando falo com alguém que trabalha para o estado a recibos verdes ou a contracto, vou ouvido, frequentemente, algo preocupante:
1.
“Os gajos do quadro não fazem nada. Nós, os recibos verdes, é que temos que fazer o trabalho todo sozinhos. “

2.
“Nós fazemos o trabalho todo. Os gajos do quadro só jogam ao computador ou curtem os chats. E se nós reclamamos os gajos põem em causa a nossa renovação do contracto.”

3.
“Nem os gajos que entraram recentemente para o quadro se lembram pelo que passaram quando também estavam a contracto. Assim que se apanharam no quadro desataram a fazer como os que já lá estavam.”

4.
“Trabalhamos horas e mais horas para fazer o nosso e o trabalho dos gajos do quadro, que, ainda por cima, entram e saem quando querem e lhes apetece. Não têm consideração nenhuma por nós.”
Será que se está a formar uma forma bizarra de sociedade por classes dentro dos serviços estatais? Será que o mesmo se passa nas empresas privadas?

Qual a relação numérica (real) entre funcionários do quadro e contratados, na função pública?

Qual o desempenho dos funcionários do quadro em relação ao dos funcionários contratados?

Qual a posição dos sindicatos nesta matéria? Será que estão a defender a classe dominante (ou escravizante)? Será que defendem o fim dos contractos a prazo como forma de aumentar a sua base de suporte e dinamizar novas contratações (temporárias (?)) para que o trabalho possa aparecer feito?

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